A obesidade é, sem dúvida, um dos temas mais preocupantes da actualidade, nomeadamente quando falamos de obesidade infantil, fenómeno que atinge proporções desmesuradas nas sociedades contemporâneas.
Estima-se que 11% das crianças de todo o mundo sofram de obesidade sendo que, em Portugal, 31,5% das crianças entre os 7 e os 9 anos têm excesso de peso ou obesidade (estudo realizado pela Universidade do Porto em parceria com outras Universidades do país, entre Outubro de 2002 e Junho 2003 e publicado no American Journal of Human Biology).
Assim, Portugal acompanha a tendência crescente de obesidade infantil apresentada por todos os países mediterrânicos, ocupando o 2º lugar no ranking europeu liderado por Itália. Na tentativa de combater estes números, a Comissão Europeia tem tentado estabelecer com a indústria alimentar uma forma de limitar a publicidade dirigida a crianças e adolescentes, sobretudo aquelas que respeitam a produtos alimentares excessivamente ricos em gordura, açúcares e sal, ameaçando com propostas legislativas regularizadoras do sector, caso as negociações não cheguem a bom porto.
Mas afinal o que é a obesidade? A obesidade define-se como um estado no qual a percentagem de gordura corporal se encontra acima dos valores normais, ou seja, superior a 18% nos homens e 25% nas mulheres, sendo que as directrizes para esta situação na idade adulta se definem na infância.
O tecido adiposo ou gordura corporal cresce por adição de lípidos quer para aumentar o tamanho das células (adipócitos) já existentes – obesidade hipertrófica – quer para aumentar o número de células – obesidade hiperplásica. O ganho de peso pode ser resultado de hipertrofia, hiperplasia ou da combinação dos dois processos. O problema nas crianças prende-se com o facto de que há um crescimento acentuado do número de células durante a infância, até cerca dos 6 anos, sendo que este processo ocorre mais rapidamente em crianças obesas. Daí o cerne da questão da obesidade infantil. Falarmos em crianças obesas é como falar necessariamente em adultos obesos.
Vários factores são relevantes na etiologia do excesso ponderal e/ou obesidade nomeadamente factores genéticos, fisiológicos e metabólicos. Contudo, sendo raros os casos de obesidade infantil cuja origem sejam perturbações endocrinológicas, os factores hereditários parecem não explicar per se o alargamento do fenómeno. Actualmente parecem existir outros factores tão ou mais importantes na génese da obesidade e mesmo no crescente aumento do número de crianças obesas em todo o mundo, como sejam factores relacionados com as mudanças do estilo de vida e hábitos alimentares. Ainda nesta linha, um estudo relevante publicado em 2003 numa revista brasileira de endocrinologia constatou que a obesidade infantil está inversamente correlacionada com a prática de exercício físico regular e o consumo elevado de verduras.
Mas mais importante que procurar causas é talvez encontrar consequências e descobrir formas de combatê-las, isto porque a obesidade infantil está directamente relacionada com o aumento da mortalidade precoce e com muitas doenças crónicas típicas do adulto, nomeadamente diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares. E como se isso não bastasse, existem ainda os problemas sociais e psicológicos que esta situação acarreta: a tendência para o isolamento social e para relações interpessoais mais conturbadas consequência da baixa auto-estima, a maior dificuldade na obtenção de bons rendimentos escolares e a maior propensão para depressões em idades prematuras, para falar nos mais importantes.
Assim, mostra-se imprescindível dar alguns conselhos relativos não só aos hábitos alimentares mas também a estilos de vida a adoptar para promover a saúde e o bem-estar das crianças:
Incentivar a prática de exercício físico regular, inserindo a criança em classes para a idade ou fomentando o exercício em família;
Elaborar refeições variadas e nutritivas, envolvendo a criança na execução das mesmas;
Preparar pratos agradáveis à vista, enchendo de cor a refeição da criança – optando por uma grande variedade de legumes;
Habituar a criança a comer várias vezes ao dia, em pouca quantidade e em ambiente calmo;
Fomentar o consumo de sopa e fruta às duas refeições principais, variando o mais possível a qualidade das mesmas;
“Encher” a despensa e o frigorífico com alimentos saudáveis para os lanches e snacks: iogurtes de aromas, leite, pão, cereais e bolachas hipocalóricos, etc;
- E por fim, apostar na educação alimentar para a saúde desde cedo… a chave do sucesso está na prevenção!
Drª Joana Martins |