O cenário na Região Autónoma dos Açores proporciona forçosamente um perfil perfeito para exportação; os açorianos deveriam enfrentar o isolamento face ao mundo como uma oportunidade de negócio para se assumirem como detentores de produtos de elevada qualidade. Contudo, há que reconhecer algumas falhas em algumas matérias, nomeadamente, além da aplicação de medidas de gestão de índole familiar, procurar enfrentar sintomas da globalização, de forma a desenvolver mecanismos de adaptação e sobrevivência: arriscar estilizar as embalagens e, antes disto, procurar oferecer, de forma o mais transparente, clara e objectivamente possível, padrões de segurança alimentar que permitam aos produtos açorianos afirmarem-se com características excepcionais: produtos alimentares de elevada qualidade sensorial, com padrões aceitáveis em prol da saúde pública e… com estilo! Uma prioridade que resulta da harmonia destes factores em conjunto e falsamente adjectivada como "sofisticada".
Indiscutivelmente esta fórmula até pode não ser a mais lucrativa a curto-prazo (os tentáculos da exportação de produtos chineses em nada aprovam estas medidas); mas os produtos açorianos têm uma identidade particular e única que lhes permite apostar na riqueza da "qualidade tradicional". É esta visão que torna os produtos açorianos e os Açores um paraíso no qual a tipicidade e identidade são aceites como triunfos. Pode-se compactuar com o fenómeno da globalidade sem se dispersar em produtos e estilos massificados: o que nos falta, além de arrumar a casa, é embarcar orgulhosamente para os quatro cantos do mundo de forma sólida, sustentável e agressiva (sem romancear a omnipotência dos produtos açorianos).
Através do Plano Operacional de Marketing da Marca Açores, no bojo da "política de modernização", o Governo Regional dos Açores já percebeu e fez a leitura correcta da situação, cujo carácter de intervenção pressupõe mais do que apenas divulgação. Na qualidade de engenheiro alimentar, os produtos devem ser criteriosamente (e continuamente) seleccionados no sentido de não negligenciar em matéria de segurança alimentar. Não convém esquecer que nos dias que correm o poder da comunicação social pode confirmar a qualidade dos produtos açorianos como pode rapidamente inverter a situação ao criar repulsa na captação de novos mercados por deslizes neste potencial Calcanhar de Aquiles. De qualquer das formas, a movimentação em "águas desconhecidas" vai nos enriquecer internamente na medida em que vai permitir incorporar uma visão mais aberta e transversal no que toca a questões de saúde pública… Só os resultados do terreno podem indicar se os moldes deste Plano são funcionais e se vão sair expectativas frustradas (julgo que não!). Independentemente disto, enquanto cidadão, iniciativas deste carácter satisfazem-me na medida em que está na altura de colocar os Açores efectivamente no mapa (da excelência). Concordamos que o timming é o ideal e imprime algum optimismo; ironicamente, numa altura em que o optimismo e anti-depressivos estão intimamente ligados numa relação de parasitismo.
Voltando à questão (aparentemente caprichosa) da segurança alimentar, e falando de forma transversal aos diversos sectores de produção e transformação, as falhas surgem aquando da sua aplicação. Com efeito, coloco em evidência imperfeições no que toca à implementação de sistemas de rastreabilidade, formação e (reais) sistemas de gestão da segurança alimentar no canal HORECA. A questão é mais complexa e intrinsecamente associada a factores sócio-culturais: ainda não se assimilou de forma não-conflituosa e plena acerca do carácter urgente e obrigatório das questões higio-sanitárias; felizmente, já se caminha no sentido de se perceber que as regalias dos sistemas de gestão da segurança alimentar são inúmeras e que as "desvantagens" (refiro: dificuldades) vão se apagar ao longo do tempo e que não podemos decretar a obsolescência de forma súbita. No fundo defendo que os produtos açorianos sejam inelutavelmente tradicionais mas modernos: "Esta chuva já não molha/Quem viveu sempre encharcado/ Todavia/ Cai sempre um pingo oportuno" (Autonomia, Carlos Eanes).
Engº Nélson Simas Publicado no Jornal "Mundo Português" - Edição de Fevereiro de 2009 |